Homenagem a Roberta Asam Penha

Durante 47 anos esse mundo teve o privilégio da presença dessa guerreira apaixonada e “espevitada”, trabalhadora incansável, ao mesmo tempo meiga e inquebrável!

Como tantos, eu tive o privilégio de receber a sua Luz em minha vida. Tenho a honra e o orgulho de tê-la, PARA SEMPRE, em meu coração!

Agora, nossa Roberta está do outro lado, certamente continuando seu caminho, sua “luta” por um mundo melhor!

Que a lembrança e a Energia dela possam nos iluminar para sempre!

Até breve, Rozinha…

Homenagem a Irene Baumel

Uma mulher forte. Ela não tinha medo de defender suas opiniões. Enfrentou os revezes da vida – e não foram poucos – com bravura e determinação.
Como mãe, não hesitava em nos ensinar e cuidar de nós, sempre atenta às nossas necessidades, sempre pronta a nos socorrer, quando preciso. Seu carinho era expresso por sua constante dedicação.
Foi uma avó diferente, não uma daquelas avós que fazem doces e guloseimas, mas uma avó que acompanhou o crescimento e desenvolvimento dos netos, dedicando-se a eles também com o mesmo afinco.
Trabalhar era, para ela, tão natural como respirar. Não se intimidava com novos desafios, e tornou-se indispensável em todos os lugares onde atuou. Quando preciso, era aprendiz dedicada; em pouco tempo, era a professora que ensinava com maior afinco.
Foi, enfim, os braços e as mãos de Deus. Sempre construindo, sempre atuando, incansável.
Partiu como sempre quis: mantendo sua autonomia, nunca admitindo deixar aos outros o trabalho que assumiu.
Que ela possa continuar seu caminho, do outro lado da vida, com a mesma dedicação de sempre e com a Paz que ela, certamente, merece.
Até um dia, mamãe…

O Rio da Vida

No filme “Sinais”, de M. Night Shyamalan, após assistirem a imagens, pela TV, de luzes que indicavam a presença de OVNIs, ainda sem saber se os ETs eram amigáveis ou hostis, Merril (o personagem de Joaquin Phoenix) pede ao seu irmão Graham (o personagem de Mel Gibson), sacerdote licenciado, que diga algo para confortá-lo, naquela hora difícil. Graham, então, diz o seguinte:

“As pessoas se dividem em dois grupos. Quando passam por algo de sorte, o grupo número um vê como mais do que sorte, mais do que coincidência. Eles vêem como um sinal. Evidência de que há alguém lá em cima cuidando deles. O grupo número dois vê como pura sorte. Um acaso feliz. Tenho certeza que o grupo número dois está olhando para essas 14 luzes de forma suspeita. Para eles a situação é meio a meio. Poderia ser ruim, poderia ser boa. Mas por dentro, eles sentem que, não importa o que acontecer, estão sozinhos. Isso os enche de medo. Essas pessoas existem. Mas tem muita gente no grupo número um, e quando eles vêem essas 14 luzes, estão vendo um milagre. E lá no fundo, sentem que não importa o que acontecer, haverá alguém lá para ajudá-los. E isso os enche de esperanças. Você deve se perguntar que tipo de pessoa você é. Você é do tipo que vê sinais, vê milagres? Ou você acredita que as pessoas simplesmente têm sorte? Ou então, veja a questão deste modo: será possível que não existem coincidências?”

Eu, pessoalmente, pertenci por muitos anos ao segundo grupo. Desenvolvi uma postura cética, que me ajudou a adotar uma posição baseada em observação e raciocínio. A vida, porém, tanto nas questões pessoais quanto nas profissionais, vem me mostrando, de modo praticamente inquestionável, que as coincidências realmente não existem, pelo menos não do modo que costumamos pensar.

Trata-se de algo que vai além da simples “fé”, ou “crença” em Deus, como quer que O denominemos. Acreditar que existe Deus, que existe uma Força Superior, não garante que encontremos essa paz de espírito, que superemos os nossos medos, nossas incertezas. É preciso algo maior, mais profundo: é preciso confiar nessa Força Superior, acima de toda e qualquer circunstância, por mais desesperadora que pareça.

Não é uma tarefa fácil. Em geral, tudo e todos apontam para um universo feito apenas de matéria, conferindo à mente, ao pensamento, às emoções, um status de subprodutos, como se fossem “efeitos colaterais” da complexidade da matéria, a partir de sua organização biológica, genética, cerebral. Ir contra essa corrente é muito difícil, pois somos levados inconscientemente a adotar esse paradigma por diversos fatores, desde a abordagem da mídia até o discurso da ciência. O homem contemporâneo, pressionado pela velocidade das mudanças, pelas ameaças político-econômicas, pelo estímulo intenso à competitividade, deixa de enxergar as “coincidências” – ou, quando as vê, é levado a desprezá-las como “simples coincidências”. Deixamos de ver os “sinais”, por estarmos continuamente preocupados, correndo não se sabe de onde nem para onde…

A Vida, no entanto, mostra continuamente esses sinais. Algumas coisas são muito surpreendentes para serem “meras coincidências”. Um exemplo, que para mim é dos mais contundentes, está em um evento raro, porém não por isso menos significativo: a percepção, em regressão, dos mesmos eventos, por duas pessoas que não se conhecem (na atual encarnação). O livro “Só o Amor é Real”, de Brian Weiss, conta uma dessas histórias. Pessoalmente, tive a oportunidade de testemunhar um desses eventos. Duas pessoas, que até hoje não se conhecem, vivenciaram eventos complementares em uma mesma história – ocorrida há aproximadamente 150 anos, pelos relatos de ambas. Além disso, uma terceira pessoa também vivenciou eventos correlacionados àqueles, embora sua experiência não tenha tanto valor como evidência, uma vez que ela já havia entrado em contato com a história, previamente (através do meu relato). Não cabe aqui a descrição mais minuciosa dessas regressões, principalmente para preservar as identidades das pessoas envolvidas.

Essas e outras evidências apontam para uma determinada “lógica” nos encontros e desencontros. Os episódios, tão comuns que eventualmente passam como insignificantes, de “amor à primeira vista” (ou “ódio à primeira vista”, também…), de reconhecimento de pessoas significativas (na vida atual) como fazendo parte de histórias vividas há séculos, mostram que não estamos aqui apenas “por acaso”. Em outras palavras, parece haver propósito na Vida!

E o nosso “livre-arbítrio”, como fica então? Se somos regidos por essa Força Superior, se os eventos importantes das nossas vidas são, de alguma forma, regidos por forças e “planos” alheios aos nossos esforços, será que somos apenas “marionetes”, apenas com a ilusão de decidirmos algo em nosso caminhar?

Trata-se, claro, de uma questão sem respostas fáceis. O melhor que eu pude, até hoje, fazer, foi elaborar uma pequena metáfora:

A Vida é como um grande rio, caudaloso, de forte correnteza. Nós entramos nela apenas com um pequeno barco a remo, com apenas um único remo em nossas mãos. Não dispomos de embarcações poderosas, impulsionadas por motores potentes, temos apenas um pequeno bote e um único remo. Não nos cabe, portanto, decidir a direção a tomar. Se tentamos remar contra a correnteza, estamos fadados a sermos levados por ela, não importa quanto nos esforçarmos, e muito provavelmente seremos lançados nas pedras, tendo nosso bote espatifado, destruído. Se tentarmos acelerar nosso progresso no sentido da correnteza, provavelmente teremos o mesmo destino. Nosso remo não serve para isso! A nossa tarefa é, simplesmente, desviar das pedras. O rio nos levará aonde precisamos chegar, mas as pedras aparecerão no caminho. Precisamos, portanto, permanecer atentos, e usar nosso pequeno remo com sabedoria, apenas fazendo aquele pequeno esforço necessário para contornarmos os obstáculos, deixando que a Força da própria Vida nos impulsione.

A sabedoria do inconsciente

Muitas pessoas me perguntam sobre a hipnose, com idéias distorcidas a respeito da mesma. Uma dessas idéias recorrentes é a de que a pessoa, em estado de transe, não tem consciência do que está acontecendo, e não irá lembrar-se de nada do que falou ou fez em transe.

Essas idéias, em grande parte, são resultado da prática chamada de “hipnose de palco”, onde os fenômenos hipnóticos são usados para impressionar uma platéia, nem sempre de maneira ética. Um exemplo sempre citado é alguém ter mordido uma cebola crua, pensando ser uma maçã, e sentindo seu gosto como o de uma maçã. Isso é realmente possível? Sim, é possível, pois no estado especial de consciência que chamamos transe hipnótico podem ser induzidas alterações de percepção, bem como alucinações (positivas ou negativas). No entanto, não há motivo algum para fazer alguém morder uma cebola, pensando ser uma maçã. Claro que, no dia que ficar definitivamente demonstrado que comer cebolas cruas é absolutamente essencial para a saúde, incorporarei essa técnica em minha prática terapêutica…

Outro fenômeno que pode ocorrer, mas não é tão comum como se pensa, é a amnésia. Durante a terapia regressiva, a absoluta maioria das pessoas lembram-se detalhadamente das experiências (re)vivenciadas. Mas eventualmente somos surpreendidos…

Um caso de amnésia espontânea

Quando eu estava ainda começando minha prática em hipnose e terapia regressiva, veio a mim uma jovem, ainda na casa dos vinte, com um quadro típico de anorexia nervosa. Seu quadro estava em estágio bastante avançado, estava desnutrida, e ainda assim via gorduras em seu corpo esquelético. Durante algum tempo, ela havia adquirido o hábito de induzir vômitos, e seu corpo se acostumou de tal modo àquilo que, na época em que ela me procurou, seu estômago rejeitava qualquer tipo de comida e os vômitos eram espontâneos.

Num primeiro momento, precisei interná-la no hospital, para alimentá-la por sonda, além de fornecer glicose e medicações contra vômitos por via intravenosa. Depois da alta hospitalar, sugeri um acompanhamento psicoterápico com regressões.

Na primeira sessão, a cliente me falou sobre suas “diferenças” com a madrasta, a quem ela parecia odiar, e de seu relacionamento um tanto “turbulento” com seu pai. Logo na segunda sessão de terapia, procedemos à regressão. Ela “voltou” com facilidade para um momento crucial de sua infância: o dia do falecimento de sua mãe, quando minha cliente tinha por volta de cinco anos de idade. Com detalhes, ela me descreveu como fora levada, junto com o irmão mais novo, para a casa de uma tia – uma vez que seu pai não se sentia em condições de cuidar deles – sem que fosse explicada ou dita qualquer coisa sobre sua mãe. Na casa da tia, a menina começou a perguntar sobre a mãe, e sempre que o fazia, a tia oferecia coisas para comer, guloseimas que minha cliente gostava, mas não respondia aos questionamentos da sobrinha. A menina recusava, dizendo “eu não quero essa comida, eu quero minha mãe!”, mas a tia insistia em oferecer guloseimas, em vez de explicações.

Levei-a, então, a uma ocasião mais antiga, em que estivessem presentes tanto a mãe quanto alimentos gostosos. Ela voltou a uma noite de Natal, de muita alegria, com suas guloseimas prediletas e, ao mesmo tempo, a presença carinhosa da mãe.

Fazendo uma reestruturação e resignificação das associações internas com a comida, dei-me por satisfeito, por aquele dia, e a trouxe de volta, especificando explicitamente que ela se lembraria de tudo o que havia visto e vivenciado, e que passaria a ter uma relação mais saudável com a comida.

Quando a jovem abriu seus olhos, eu perguntei: “E aí?”. Ela me perguntou: “E aí o quê?”

― O que você achou de tudo isso?

― Tudo o quê?

― Isso que você viu!

― Eu não vi nada, eu estava dormindo! Só ouvi você contar de dez para baixo e dormi, acordando agora.

Apesar da minha inexperiência, naquela época, percebi que não deveria insistir, muito menos contar a ela sobre o que ela mesma havia revelado, alguns minutos antes. Desconversei, e agendamos nova sessão para a semana seguinte.

Esse caso, de amnésia espontânea, ilustra bem a sabedoria do inconsciente. Minha jovem cliente não estava preparada para saber, conscientemente, sobre o que acontecera em sua infância. Mas seu inconsciente sabia disso, e – apesar das minhas sugestões diretas para lembrar-se – manteve toda a experiência inacessível ao consciente!

Além dessa, apenas um outro cliente teve amnésia sobre a vivência, e nesse outro caso, foi de apenas parte da vivência. Mas esse caso ilustra bem a sabedoria da mente inconsciente, com a qual eu sempre conto para selecionar aquilo que meus clientes estão ou não aptos a descobrirem.

P.S.: A cliente, como era de se esperar, não voltou mais. Uns dois anos depois, no entanto, eu tive notícias dela, de que estava bem, sem ter tido novamente problemas com a alimentação. Pouco tempo depois, eu a vi na rua, e me pareceu estar dentro de seu peso ideal…

Porque contar histórias?

Na tradição judaica, uma das grandes celebrações é o “Pessach”, a “páscoa” judaica. Nela, comemoramos a libertação do povo Hebreu da escravidão vivida por várias gerações em solo egípcio, e a jornada de 40 anos em direção à “terra prometida”.

A comemoração do “Pessach” envolve uma cerimônia especial, chamada “seder” (que significa “ordem”), onde toda a história daquela libertação é re-contada a cada ano, incluindo vários elementos simbólicos, que são muitas vezes re-significados, ao longo do tempo.

Certa vez, procurando material para organizar um “seder” que fizemos em minha casa, encontrei a seguinte história:

 “Uma História Sobre Histórias

Quando o grande fundador dos modernos Hassidim, Rabbi Israel Baal Shem Tov, via que a desgraça ameaçava os Judeus, ele ia a um determinado local da floresta para meditar. Lá ele acendia uma fogueira, recitava uma certa oração, e o milagre acontecia, revertendo a desgraça ou problema.

Mais tarde, quando o seu discípulo, o Rabbi Maggid de Mezritch, tinha necessidade, pelos mesmos motivos, para pedir a intercessão dos céus, ele ia ao mesmo local na floresta e dizia: “Senhor do Universo, ouça-me! Eu não sei acender a fogueira, mas eu ainda posso recitar a oração.” E novamente o milagre acontecia, o desastre era evitado, e a vida seguia com seus altos e baixos.

Depois ainda, Rabbi Moshe-Leib de Sasov, para salvar seu povo uma vez mais (desta vez, de si mesmos), ia à floresta e dizia: “Eu não sei acender a fogueira, e não sei recitar a oração, mas eu sei qual o local, e isso deve ser suficiente.” Era o suficiente, e o milagre da continuação da vida acontecia.

Então recaiu sobre Rabbi Israel de Rizhyn superar a desgraça. Sentado em sua casa, com sua cabeça entre as mãos, ele falou a Deus: “Eu não sei acender a fogueira, eu não conheço a oração, e nem mesmo posso encontrar o lugar certo na floresta. Só o que posso fazer é contar a história, e isso deve ser o suficiente.” E foi suficiente.

Algumas pessoas dizem que Deus fez o homem porque Ele adora de histórias. E nós contamos a história do Pessach todos os anos, antes da ceia, porque esta é a história de como chegamos onde estamos. Esta é a história, tanto quanto podemos nos lembrar, de nosso início.”